Nós, brasileiros (e humanos em geral), somos afeitos a certos tipos de regionalismos curiosos. Entendemo-nos como uma nação apenas em momentos específicos – no geral, em eventos esportivos com possibilidade iminente de título. Gostamos, porém, do regionalismo. Somos gaúchos, capixabas, mineiros, baianos, antes de sermos brasileiros. Em casos específicos, por ignorância, somos cariocas antes de sermos fluminenses e paulistas antes de paulistanos. Há com certeza raízes históricas para tal comportamento. O país é muito grande e com muito custo foi mantido assim quando alguém aventou a possibilidade, nos idos do século XIX, de que poderíamos, ao contrário de nossos vizinhos, manter a unidade territorial. Claro que “unidade” foi – e é – um eufemismo.
Gostamos tanto de regionalismos que vamos restringindo cada vez mais os grupos. E é claro que o processo em que se restringe os grupos é o mesmo que exclui indivíduos. Parece-me que o cerne da questão gira em torno da cultura. Podemos restringir grupos – sempre excluindo integrantes – e sempre estaremos tratando de cultura. A pessoa é cristã, mas também é latino-americana, e brasileira, e fluminense, e angrense (e, quiçá, flamenguista). O que importa é que em todas as esferas de identificação acima há um viés cultural. Sem pormenorizar, podemos afirmar que há cultura cristã, cultura latino-americana, brasileira, fluminense e talvez até angrense. Em geral, identidades culturais são geograficamente identificáveis à exceção da religião*, mas podemos notar que há áreas de influência territorial de certas religiões. Muito provavelmente alguém que nasça na América será cristão (i.e., mesmo que não-religioso, ao menos regido por uma cultura cristã) e isto já basta para meu argumento. As delimitações culturais podem ser representativas de delimitações territoriais, pelo menos em origem. E, por isso, enfatizei nosso jeito tupiniquim de restringir culturas – não que não existam modos semelhantes em outras regiões do mundo, mas meu pensamento também é restrito regionalmente, assim como culturas.
Porém, o que me levou a refletir sobre tudo isso foi o chamado “movimento negro”. É um tipo de valorização cultural do negro. Alguns grupos têm como objetivo espraiar a “cultura negra” como forma de eliminar preconceitos por desconhecimento. Outros clamam por uma espécie de indenização histórica pelo que o “povo” sofreu durante séculos de exploração capitalista. Sempre me incomodou o fato de existir algum tipo de pensamento desse tipo cuja viés mais ou menos exacerbada é, na melhor das hipóteses, segregação, na pior, racismo puro, simples e irracional. Não há razão de ser de frases como a do grupo O Rappa: “Branco, se você soubesse o valor que o preto tem; tu tomava banho de piche, branco e, ficava preto também.” Qual é o sentido de um pensamento como esse? Minha ideia não é buscar respostas, mas formular algumas questões.
Parece haver algum tipo simplório de pensamento de pureza racial. Algum tipo de forma de dizer que os negros são melhores nisso ou naquilo que os brancos. O que é algo belamente nazista. Não há pureza racial, assim como não existem raças na espécie humana. Passamos por um gargalo genético há alguns milhões de ano, a espécie quase foi extinta, mas persistimos e cá estamos. O preço pago é que não há muita diferença genética entre europeus e americanos e asiáticos etc. Então nada mais é senão burrice ou ignorância uma camisa com os dizeres “100% Negro”, a não ser que se refira ao tecido. Prefiro “Índio, europeu, africano e algo mais; não sei bem a proporção”. Seria uma bela estampa. Será, talvez, que o “movimento negro” existe para combater o racismo de que são alvo? Talvez não estejam gerando mais racismo a se combater?
Qual é o impacto a longo prazo do dia da consciência negra? Para que serve isso de fato? Por que é que deveríamos nos restringir a celebrar a cultura x e não a y? Por que olhamos para os negros e pensamos que apenas este nicho (e não outro, pois estamos restringindo, como dito acima) é digno de celebração? Não vejo movimentação para valorizar o dia do índio ou o da mulher.** Não vejo nem marcado no calendário o dia do “amarelo”. Negros ajudaram a construir este país. Índios, mulheres e asiáticos também. E russos, e alemães, e ibéricos. E voltando àquela ideia de que cultura é regional, não é estranho falar em “cultura negra”? Não existe raça nem cultura neste caso. O que é cultura negra? Todo negro é adepto dessa cultura? Existe algo que apenas negros façam que conseguiu delimitar uma fronteira imaginária entre negros e o resto? Talvez seja o fardo do homem negro nos iluminar a respeito de certo tipo de cultura que não é exclusivamente negra.
Quando se fala em cultura negra, o que se quer dizer é cultura afro. Afro-brasileira, afro-americana etc. Isso sim é honesto e válido. Ficar ressoando restrições e diferenciações inexistentes é contra-produtivo e nocivo para o bem-estar social. Mas ensinar crianças que devemos valorizar todas as culturas, mas especialmente esta ou aquela é tão ruim quanto. Foi esse pensamento que criou a política de cotas e permite que negros ricos consigam vagas de brancos pobres. Por que não lutar para criar o dia do panculturalismo? Por que não enfatizar, por outro lado, em todos os dias nacionais disso ou daquilo, a contribuição dos diversos entes culturais para uma cultura universal? Para tanto, não podemos esquecer, de que é um contra-senso um feriado negro quando não existe um branco, um amarelo, um roxo, um rosa etc. E, acima de tudo, o pensamento racional não deveria ser tabu para tema algum, muito menos para esta ilusória diferenciação racial.
Então posso ser tachado de radical, podem me criticar por generalizar e que nem todos os negros pensam como O Rappa, que alguns são mais moderados e apenas querem ser ouvidos, só não me chamem de racista, pois me recuso a acreditar que o pensamento de uma pessoa está relacionado à pigmentação da pele. Negros não são um grupo homogêneo como a espécie humana não é um grupo homogêneo. Culturalmente, não existe isso. Existem rótulos que tornam a análise superficial da realidade mais didática. Recuso-me a me encaixar em algum rótulo e a rotular as pessoas. Há um grau mais geral de cultura do qual ninguém fala, mas, se é para ser lugar-comum, que seja!, por acaso, sou dessa cor e falo essa língua, respeito este calendário; por acaso, nasci neste país e sou parte integrante desta cultura. Meu grau mínimo de identificação cultural é com a espécie como um todo, pois tenho um pouco de cada pedaço do mundo. Sou mestiço e terráqueo.
NOTAS:
*Refiro-me às culturas mais gerais. É óbvio também que as culturas nascem em determinadas regiões e podem se expandir para outras, mas há sempre traços regionais inerentes às regiões. Com o perdão do exemplo pífio: o fascismo é tipicamente italiano, influenciou o nazismo que incluiu o ideal volks alemão e também influenciou o integralismo tipicamente brasileiro de Plínio Salgado. É tudo fascismo, mas com as cores regionais.
**Há também o feminismo, movimento que buscou (busca) igualar as condições de vida social entre homens e mulheres. Há mais diferenças entre homens e mulheres do que entre brancos e negros. Creio ser muito mais válido o feminismo que a valorização da cultura negra. Se existir algum tipo de retórica defendendo uma cultura feminista, bem, então minhas críticas também serviriam para as mulheres que pensam assim.
Seu texto é bem escrito, mas os argumentos e a conclusão são completamente errados.
ResponderExcluirTambém me incomoda alguns elementos do movimento negro conclamando o seu povo, no entanto não há como negar que somos sim um grupo delimitado e que uma das estruturas básicas de exclusão na sociedade brasileira é o racismo.
Os negros não se formam em grupo de dentro pra fora e positivamente como os que vc chamou atenção (cariocas, católicos). O grupo é imposto de fora pra dentro e baseado em caracteristicas negativas. Leia Oracy Nogueira sobre nosso racismo de marca. Tem algumas coisas datadas, mas é bom.
Dá uma lida na Mirian Leitão que é ótima escrevendo sobre qq coisa menos economia: http://www.ufmg.br/inclusaosocial/?p=28
Quando eu tiver saco eu escrevo um post de resposta mais profunda.
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ResponderExcluirPara pensar:
ResponderExcluirNão podemos esquecer que no século XIX o racismo ganhou status científico por meio da eugenia, doutrina que inspirou governos e intelectuais de todo o mundo.
O medo burguês da multidão, aliado ao triunfo do discurso científico, encontrou na biologia um meio de pôr ordem no aparente caos social: reurbanização, disciplina e políticas de higiene pública deveriam ser aplicadas com a finalidade de prevenir a degradação física dos trabalhadores para evitar prejuízos finaceiros.
Charles Darwin publicou em 1859 o livro fundador do evolucionismo: A origem das espécies. As descobertas de Darwin mostravam que no mundo animal, só os mais bem adaptados sobrevivem e os mais bem “equipados” biologicamente têm maiores chances de se perpetuar na natureza. As teses de Darwin logo foram apropriadas por outros campos do conhecimento na tentativa de explicar o comportamento humano em sociedade. Surge assim o darwinismo social, que apresenta os burgueses como os mais capazes, os mais fortes, os mais inteligentes e os mais ricos.
Francis Galton,primo de Darwin se apropriou das descobertas do naturalista para desenvolver uma nova ciência: a eugenia. Seu objetivo era aperfeiçoar a espécie humana por meio de casamentos entre os “bem dotados biologicamente” e o desenvolvimento de programas educacionais para a reprodução consciente de casais saudáveis.
Entre os métodos propostos pelos entusiastas da nova ciência estava à criação de um “haras humano”, povoando o planeta de gente sã, como propunham os defensores da “eugenia positiva”. No outro extremo, a “eugenia negativa” postulou que a inferioridade é hereditária e a única maneira de “livrar” a espécie da degeneração seria utilizar métodos como a esterilização, a segregação, a concessão de licenças para a realização de casamentos e a adoção de leis de imigração restritiva.
As idéiais tem força, uma simples atitude racista pode levar à grandes tragédias.
Grupos do movimento negro que pregam o casamento entre iguais, criticam os mais claros "pq eles não sentem a discriminação o suficiente para fazer parte do movimento", criticam os cabelos alisados, criticam o namoro com pessoas brancas acusando seus membros que o fazem de querer "limpar a cor" são de um racismo muito perigoso, e o pior: não raro tem o consentimento da sociedade ao vestir suas camisas 100% NEGRO quando o contrário seria considerado extremo racismo.