sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O fardo do homem negro

Nós, brasileiros (e humanos em geral), somos afeitos a certos tipos de regionalismos curiosos. Entendemo-nos como uma nação apenas em momentos específicos – no geral, em eventos esportivos com possibilidade iminente de título. Gostamos, porém, do regionalismo. Somos gaúchos, capixabas, mineiros, baianos, antes de sermos brasileiros. Em casos específicos, por ignorância, somos cariocas antes de sermos fluminenses e paulistas antes de paulistanos. Há com certeza raízes históricas para tal comportamento. O país é muito grande e com muito custo foi mantido assim quando alguém aventou a possibilidade, nos idos do século XIX, de que poderíamos, ao contrário de nossos vizinhos, manter a unidade territorial. Claro que “unidade” foi – e é – um eufemismo.

Gostamos tanto de regionalismos que vamos restringindo cada vez mais os grupos. E é claro que o processo em que se restringe os grupos é o mesmo que exclui indivíduos. Parece-me que o cerne da questão gira em torno da cultura. Podemos restringir grupos – sempre excluindo integrantes – e sempre estaremos tratando de cultura. A pessoa é cristã, mas também é latino-americana, e brasileira, e fluminense, e angrense (e, quiçá, flamenguista). O que importa é que em todas as esferas de identificação acima há um viés cultural. Sem pormenorizar, podemos afirmar que há cultura cristã, cultura latino-americana, brasileira, fluminense e talvez até angrense. Em geral, identidades culturais são geograficamente identificáveis à exceção da religião*, mas podemos notar que há áreas de influência territorial de certas religiões. Muito provavelmente alguém que nasça na América será cristão (i.e., mesmo que não-religioso, ao menos regido por uma cultura cristã) e isto já basta para meu argumento. As delimitações culturais podem ser representativas de delimitações territoriais, pelo menos em origem. E, por isso, enfatizei nosso jeito tupiniquim de restringir culturas – não que não existam modos semelhantes em outras regiões do mundo, mas meu pensamento também é restrito regionalmente, assim como culturas.

Porém, o que me levou a refletir sobre tudo isso foi o chamado “movimento negro”. É um tipo de valorização cultural do negro. Alguns grupos têm como objetivo espraiar a “cultura negra” como forma de eliminar preconceitos por desconhecimento. Outros clamam por uma espécie de indenização histórica pelo que o “povo” sofreu durante séculos de exploração capitalista. Sempre me incomodou o fato de existir algum tipo de pensamento desse tipo cuja viés mais ou menos exacerbada é, na melhor das hipóteses, segregação, na pior, racismo puro, simples e irracional. Não há razão de ser de frases como a do grupo O Rappa: “Branco, se você soubesse o valor que o preto tem; tu tomava banho de piche, branco e, ficava preto também.” Qual é o sentido de um pensamento como esse? Minha ideia não é buscar respostas, mas formular algumas questões.

Parece haver algum tipo simplório de pensamento de pureza racial. Algum tipo de forma de dizer que os negros são melhores nisso ou naquilo que os brancos. O que é algo belamente nazista. Não há pureza racial, assim como não existem raças na espécie humana. Passamos por um gargalo genético há alguns milhões de ano, a espécie quase foi extinta, mas persistimos e cá estamos. O preço pago é que não há muita diferença genética entre europeus e americanos e asiáticos etc. Então nada mais é senão burrice ou ignorância uma camisa com os dizeres “100% Negro”, a não ser que se refira ao tecido. Prefiro “Índio, europeu, africano e algo mais; não sei bem a proporção”. Seria uma bela estampa. Será, talvez, que o “movimento negro” existe para combater o racismo de que são alvo? Talvez não estejam gerando mais racismo a se combater?

Qual é o impacto a longo prazo do dia da consciência negra? Para que serve isso de fato? Por que é que deveríamos nos restringir a celebrar a cultura x e não a y? Por que olhamos para os negros e pensamos que apenas este nicho (e não outro, pois estamos restringindo, como dito acima) é digno de celebração? Não vejo movimentação para valorizar o dia do índio ou o da mulher.** Não vejo nem marcado no calendário o dia do “amarelo”. Negros ajudaram a construir este país. Índios, mulheres e asiáticos também. E russos, e alemães, e ibéricos. E voltando àquela ideia de que cultura é regional, não é estranho falar em “cultura negra”? Não existe raça nem cultura neste caso. O que é cultura negra? Todo negro é adepto dessa cultura? Existe algo que apenas negros façam que conseguiu delimitar uma fronteira imaginária entre negros e o resto? Talvez seja o fardo do homem negro nos iluminar a respeito de certo tipo de cultura que não é exclusivamente negra.

Quando se fala em cultura negra, o que se quer dizer é cultura afro. Afro-brasileira, afro-americana etc. Isso sim é honesto e válido. Ficar ressoando restrições e diferenciações inexistentes é contra-produtivo e nocivo para o bem-estar social. Mas ensinar crianças que devemos valorizar todas as culturas, mas especialmente esta ou aquela é tão ruim quanto. Foi esse pensamento que criou a política de cotas e permite que negros ricos consigam vagas de brancos pobres. Por que não lutar para criar o dia do panculturalismo? Por que não enfatizar, por outro lado, em todos os dias nacionais disso ou daquilo, a contribuição dos diversos entes culturais para uma cultura universal? Para tanto, não podemos esquecer, de que é um contra-senso um feriado negro quando não existe um branco, um amarelo, um roxo, um rosa etc. E, acima de tudo, o pensamento racional não deveria ser tabu para tema algum, muito menos para esta ilusória diferenciação racial.

Então posso ser tachado de radical, podem me criticar por generalizar e que nem todos os negros pensam como O Rappa, que alguns são mais moderados e apenas querem ser ouvidos, só não me chamem de racista, pois me recuso a acreditar que o pensamento de uma pessoa está relacionado à pigmentação da pele. Negros não são um grupo homogêneo como a espécie humana não é um grupo homogêneo. Culturalmente, não existe isso. Existem rótulos que tornam a análise superficial da realidade mais didática. Recuso-me a me encaixar em algum rótulo e a rotular as pessoas. Há um grau mais geral de cultura do qual ninguém fala, mas, se é para ser lugar-comum, que seja!, por acaso, sou dessa cor e falo essa língua, respeito este calendário; por acaso, nasci neste país e sou parte integrante desta cultura. Meu grau mínimo de identificação cultural é com a espécie como um todo, pois tenho um pouco de cada pedaço do mundo. Sou mestiço e terráqueo.

NOTAS:
*Refiro-me às culturas mais gerais. É óbvio também que as culturas nascem em determinadas regiões e podem se expandir para outras, mas há sempre traços regionais inerentes às regiões. Com o perdão do exemplo pífio: o fascismo é tipicamente italiano, influenciou o nazismo que incluiu o ideal volks alemão e também influenciou o integralismo tipicamente brasileiro de Plínio Salgado. É tudo fascismo, mas com as cores regionais.
**Há também o feminismo, movimento que buscou (busca) igualar as condições de vida social entre homens e mulheres. Há mais diferenças entre homens e mulheres do que entre brancos e negros. Creio ser muito mais válido o feminismo que a valorização da cultura negra. Se existir algum tipo de retórica defendendo uma cultura feminista, bem, então minhas críticas também serviriam para as mulheres que pensam assim.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Liberdade e democracia: um olhar sobre valores políticos nas histórias em quadrinhos


Hoje em nome de uma só verdade vão riscar de fogo o breu do céu
Hoje em nome de uma só vontade vão cuspir no azul do céu
(Em nome da Liberdade) Em nome de um deus que não é o seu
(Em nome da Liberdade) Em nome de um deus que não é o meu.
(Sérgio Britto)

Em meio a um cenário de caos durante a ocupação norte americana do Iraque, um episódio na capital do país chamou atenção da imprensa em muitas partes do mundo. Pouco depois do início da incursão estadunidense, em abril de 2003 centenas de animais foram extraviados por saqueadores ou escaparam do zoológico de Bagdá, até então o maior do Oriente Médio, depois de um período de abandono iniciado pela permanência de grupos paramilitares iraquianos nos arredores do estabelecimento. Desse modo, o zoológico acabou sendo alvejado pela artilharia americana. Esse é um exemplo das perdas de patrimônio decorrentes de guerras travadas em ambientes urbanos, muitas vezes irreparáveis como no caso do Museu Nacional do Iraque e seu acervo da Mesopotâmia, menos divulgadas que as mortes de militares ou resistência local.

Tendo utilizado o mote do episódio do zoológico, Brian K. Vaughan desenvolve a graphic novel Os Leões de Bagdái que narra de maneira metafórica a história verídica dos quatro leões (um macho e três fêmeas) que fugiram de suas jaulas no zoológico por uma abertura provocada pelo bombardeio ao local, após terem ficado dias sem se alimentar, uma vez que os funcionários abandonaram suas posições tão logo ficou claro que o recinto poderia ser alvo de ataques pelo motivo exposto acima. Com fome, os felinos vagaram por alguns dias até que, após dois deles terem ameaçado atacar soldados norte-americanos, foram todos abatidos pelos militares da 3ª Divisão de Infantaria dos Estados Unidosii. Na história em quadrinhos (HQs) de Vaughan, ilustrada pelo canadense Niko Henrichon, a trajetória desses leões serviu de inspiração para que os autores criassem algo que podemos chamar de fábula política, pois a alegoria criada a partir da saga dos quatro leões é referência clara ao sofrimento da população civil de qualquer lugar do globo que se encontre numa situação de guerra nos seus quintais. Percebemos que em meio a sua fábula há uma preocupação de Vaughan em não antropomorfizar demasiadamente seus personagens, o que pode ser exemplificado pelo fato de os leões chamarem os humanos genericamente de “tratadores”.

Tratando de HQs, devemos teorizar brevemente sobre a chamada “cultura de massa”, que é um termo de definição problemática, pois pode variar de pensador para pensador, a despeito de o conceito estar impregnado de significados no âmbito do que podemos chamar de senso comum. A acepção do que seria cultura da mídia pode tanto divergir quanto se aproximar do sentido atribuído ao primeiro conceito. Neste trabalho, entendemos cultura de massa como quase um sinônimo de cultura da mídia. Não é necessariamente isto, mas em alguns momentos é possível perceber que tanto uma expressão quanto outra dão conta do que está sendo analisado. No caso das histórias em quadrinhos, esta relação se apresenta. Umberto Eco aponta como característica da cultura de massa “a adequação do gosto e da linguagem às capacidades receptivas da média”iii. É fundamental que também se entenda esse tipo de cultura como sendo intrinsecamente comercialiv. Isto Eco nomeia de “indústria cultural”, que fomentou a criação de algo que pôde ser chamado pelo intelectual italiano de “civilização de massa” em que

todos que pertencem à comunidade se tornam, em diferentes medidas, consumidores de uma produção intensiva de mensagens a jato contínuo, elaboradas industrialmente em série, e transmitidas segundo os canais comerciais de um consumo regido pelas leis da oferta e da procura.v

Podemos então definir cultura de massa como indústria cultural, afinal a cultura passou a ser considerada um produto que é consumido pelas massas e regulado pelas leis de mercado. É uma cultura comercial em que se busca primordialmente o lucro.

Há na cultura de massa, independente do nivelamento dos produtos culturais ao gosto e desejo da média, a produção de valores. E isto é algo de suma importância para a nossa pesquisa, uma vez que é nosso objetivo principal identificar os valores políticos produzidos por determinadas histórias em quadrinhos. Esses valores são produzidos não graças aos “produtores de objetos de consumo cultural”, ou seja, os que poderíamos identificar como executivos da indústria cultural. Umberto Eco defende que entre esses executivos estariam trabalhando também “produtores de cultura”, para quem o fim da indústria cultural não é a fabricação de objetos de consumo pura e simplesmente, mas sim a produção de valores difundidos por determinados suportesvi. O que vai direcionar a nossa análise dos quadrinhos é esse pressuposto de que existe um desejo legítimo de produção de algum tipo de valor no processo de funcionamento da indústria cultural. Além disso, é fundamental apontar que, para além de uma análise radical, não consideramos a cultura da mídia como um mecanismo moderno de manipulação e controle das massas populacionais; concordamos com Eco e Douglas Kellner, teórico americano sobre cultura da mídia, ao deixarem claro o caráter dialógico da indústria cultural. Não ignoramos que a produção cultural dos mass media é feita de cima para baixo, mas também não se pode menosprezar a vontade popular de consumir ou não determinado produto; o que determina o funcionamento da cultura de massa é a relação do que é produzido pela classe dominante e o que é bem recebido e consumido pela população em geral.

É relevante o estudo deste tipo de obra midiática, pois ela irá, propositalmente ou não, expressar os valores da sociedade em que é produzida e consumida. Valores esses que podem estar sendo elaborados naquela determinada peça ou outros até já entranhados na coletividade que são até naturalizados. Partindo do pressuposto que HQs, como suporte, constituem um veículo de cultura de massavii podemos analisar esses valores que são produzidos e/ou difundidos nas histórias como representantes das opiniões e anseios da média da população. Afinal, o que impeliu os autores das obras analisadas neste trabalho (e diversos outros) a escrever os textos críticos não pode ser considerado como simples motivação capitalista pela produção de algo meramente consumível e descartável; eles são, como o público-alvo de suas HQs, pertencentes à comunidade de cidadãos estadunidenses e compartilham, por isso mesmo, da mesma vivência. Sabemos estar propondo um tipo de generalização, mas ao tratar de cultura de massa, temos em mente que o que é produzido visa obnubilar as diferenças no interior de dada sociedade (no nosso caso, a sociedade norte-americana). Os quadrinhos, a exemplo de filmes e seriados televisivos, são endereçados a uma variedade de pessoas de visões de mundo distintas e conseguem ser consumidos por tentar (e conseguir, muitas vezes), através de mecanismos variados, ser atraente aos olhos dessa gama de consumidores. O nivelamento dos gostos a uma média mais ou menos homogênea – o que caracteriza os produtos da cultura de massa – nos permite traçar um panorama do norte-americano médio. Neste trabalho, enfocaremos, principalmente a partir de considerações acerca da graphic novel mencionada acima, a visão expressa nos quadrinhos, no período do governo Geoge W. Bush (2001-09), em relação aos conflitos e querelas do Oriente Médio.

Na graphic novel de Vaughaun, é contada a história de quatro leões de personalidades distintas que se vêem obrigados a fugir da jaula de onde viviam no zoológico de Bagdá devastado por ataques aéreos. Duas fêmeas (a anciã Safa e a jovem Noor), um macho (Zill) e um filhote (Ali, filho de Noor) começam a vagar por florestas e ruas inóspitas em busca de alimento. A jornada dos quatro animais na cidade sitiada é o mote da graphic novel lançada em agosto de 2006 pelo selo adulto Vertigo da editora de quadrinhos DC Comics.

O leão Zill demonstra uma apatia com relação ao local em que vive e tem um pensamento imediatista. Para ele, não importa em que tipo de local ou sob cuidados de quem se vive desde que lhe sejam propiciados os meios de sobrevivência. Esse felino representa na HQ o “cidadão comum” do Iraque (e, como afirmado acima, de quaisquer regiões em conflito); ele é aquela pessoa apolitizada, para quem podas às liberdades de expressão ou até ao direito de ir e vir não significam muito, pois, para esse homem, desde que suas necessidades mais imediatas de sobrevivência sejam satisfeitas, não há com o que se preocupar de fato.

Apresentando uma resistência a deixar o zoológico, Safa é uma anciã caracterizada por um pensamento mais conservador. A leoa se mostra reticente perante as mudanças, mas não simplesmente por um apego desmedido à tradição e sim por ter uma postura crítica à mudança, uma vez que não necessariamente uma situação desfavorável quando transformada é substituída por uma melhor.

Ousadia é algo bastante presente em Noor. A jovem leoa aparece na trama dialogando com animais de outras espécies com intuito de elaborar uma fuga do cativeiro, situação que a incomodava. A visão que Noor possuía do lado de fora do zoológico não deixa de ter uma certa idealização, qualificada por Safa como uma “miragem”.viii Noor menciona inclusive que os camelos diziam que ao redor do zoológico o que havia era deserto e ao sair ela interpreta o fato com uma tentativa de mantê-los desanimados do que tentar a vida fora do zoológico. Mesmo com as variadas dificuldades e todo um cenário esfumaçado e ensanguentado que o confronto produziu, Noor vê a liberdade “conseguida” como uma vitória. As discussões com Safa giram em torno de uma questão central: a insegurança, sem tempo estimado para acabar, que aquele novo ambiente inspirava. Enquanto Noor se deslumbra por ter agora diante de si o alcance de sua visão bastante ampliado, a experiente leoa permanece pessimista com relação ao provimento das mínimas condições de vida, por muito tempo obtidas sem transtornos. Ali, o filhote de Noor, ainda é bastante dependente da mãe, tanto para saciar suas necessidades, quanto para ser libertado de macacos que ameaçavam matá-lo para se alimentarem. O leãozinho é uma figura que enriquece os diálogos com sua insaciável curiosidade perante a mudança. Ali pode ser entendido como o representante daqueles que nasceram num período ditatorial e vivenciam as incertezas, as esperanças e descrenças sobre o que está por vir.

Em um dado momento da história, Noor se diz despreparada para ser livre, o que é refutado por Zill, que relembra que ela mesma sempre defendeu que a Liberdade é algo com que se nasce, enquanto o cativeiro configuraria um ambiente que requer uma adaptação. Esta imagem da liberdade, neste caso, a saída do cativeiro que simboliza o fim de um regime autoritário é idealizada, uma vez que, na história, uma série de adversidades são enfrentadas. É preciso relativizar os benefícios dessa Liberdade que não é conquistada e sim, cedida. Podemos então integrar a temática da democracia à nossa reflexão. A política externa estadunidense durante o governo de George W. Bush reiterou amiúde sua “vocação” para implantar a democracia em países que viviam sob uma ditadura, com especial enfoque no Oriente Médio. A implementação de um governo democrático, tido como ideal no “Ocidente” para as mais distintas sociedades, está longe de atingir um patamar consolidado e continua incapaz de proporcionar as mínimas condições de vida às populações. É uma ironia que um regime político com os princípios e objetivos aos quais está associado intrinsecamente seja implantado “de fora para dentro” e, por conseguinte, os “responsáveis” por esta transformação não são capazes de controlar e muito menos de executar o “projeto” (se é que tinham um) num prazo delimitado. A isso Eric Hobsbawm chamou de “imperialismo dos direitos humanos”ix. Os Estados Unidos teriam a equivocada percepção de que têm a missão de exportar os preceitos políticos fundamentais do “Ocidente” para todo o globo. As séries Authority e Os Supremos tratam, dentre muitos outros tópicos, desse tema; mais a frente será comentado sobre elas.

Ao longo do texto de Vaughan há uma alternância entre a cooperação entre as leoas e as disputas entre elas (inclusive com relação a Zill). O fato de haver um “inimigo comum” não suprime totalmente as rivalidades entre os que vivenciam uma circunstância de guerra. Podemos estabelecer uma relação entre isso e as disputas pelo poder em que se envolvem os habitantes de um território assolado pela guerra, já que aqueles que detinham uma posição de liderança relutarão em perdê-la enquanto os grupos até então desfavorecidos passam a vislumbrar uma possibilidade de alavancar seu status. Lembrando que muitas vezes essas disputas internas são fomentadas pelos países que efetuam a intervenção, como forma de desestruturar internamente e dominar mais facilmente o território ocupado, estratégia usualmente empregada pelos países europeus durante os séculos XIX e XX durante o chamado neocolonialismo na África e na Ásia.

Os posicionamentos dos personagens de Os Leões de Bagdá não são extremados, defendendo pontos de vista superficiais ou defendendo pensamentos pouco elaborados. O autor nos parece bastante cuidadoso nesse sentido, uma vez que empobrecer uma determinada visão política é um artifício comumente utilizado para enfraquecê-la, demonstrando a superioridade daquilo que se defende.

Foi comentado mais acima que os Estados Unidos têm a pretensão de exportar seus valores para o resto do mundo; quanto a isso é interessante notar os posicionamentos distintos de duas outra séries de quadrinhos americanas: Authorityx e Os Supremosxi. Ambas as séries são importantes para o nosso trabalho, pois complementam a visão de Vaughaun. Se este autor interessou-se em tratar como é o impacto na população civil numa situação de guerra trabalhando metaforicamente o conceito de liberdade, os autores dessas duas outras séries produziram outras alegorias sobre um prisma mais político e focado não na população civil, mas no corpo político e (para)militar.

Authority tem como mote a organização de uma célula anarquista homônima composta por pessoas com poderes incríveis que se dão a função de serem os mantenedores da Terra. Nas palavras da líder do grupo, eles são “uma autoridade superior”xii aos poderes públicos nacionais e transnacionais. Apesar de aceitarem cooperar com a Organização das Nações Unidas (ONU), não respondem a nenhum governo, nenhum país. Veem-se, pois, como uma organização à parte das querelas políticas da humanidade como um todo, podendo ter uma visão entendida como imparcial desses problemas, sendo, portanto, os mais indicados para resolvê-los ou para intervirem onde precisar. A série foi publicada originalmente pelo selo Wildstorm da DC Comics, entre 1999 e 2001.

Os Supremos, da editora Marvel Comics, conta a história de um supergrupo financiado por um orçamento gigantesco pelo governo dos Estados Unidos para cuidar da defesa do país e de interesses internacionais, no clássico sentido de que os norte-americanos são os guardiões do mundo (algo que, no segundo volume da série, se expande para a luta contra o “terrorismo pós-humano”), sob o comando do general Nick Fury e respondendo diretamente à fictícia agência norte-americana S.H.I.E.L.D. (Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão - Strategic Hazard Intervention, Espionage and Logistics Directorate, no original), uma força-tarefa de manutenção da paz que também responde à ONU. Ambas as séries seguem uma linha de histórias para leitores mais maduros numa temática já recorrente para este segmento que tenta ilustrar como seriam tratadas pessoas superpoderosas no mundo real e suas implicações políticas e sociais.

As séries, de modo geral, vilanizam as atitudes intervencionistas dos Estados Unidos (no caso de Authority, também de todos os países que são mais poderosos em relação a quaisquer outros). Em Os Supremos, os Estados Unidos chegam a sofrer as conseqüências de sua ingerência internacional em seu próprio solo. Os autores mostram um ataque super-humano contra Washington e Nova Iorque em que o avião presidencial, Força Aérea Um, é abatido, o presidente Bush é feito refém e o grupo liderado por Fury é praticamente abatido. A fala da coalizão “vilã” formada por China, Coreia do Norte, Síria, Rússia (de caráter soviético) e Azerbaijão é interessante de se analisar:

Nós avisamos que vocês deviam parar de produzir superseres, Estados Unidos. Dissemos que não queríamos que interferissem em culturas que jamais puderam compreender. Isto é o que acontece quando suas ambições superam suas capacidades. O império cai.xiii

No contexto da trama, a produção de superseres é uma violação de tratados internacionais pelos Estados Unidos. Por um lado, o país proíbe e inibe a continuação de experimentos que visem à produção do que é chamado na série de “pessoas de destruição em massa”, ou seja, seres com poderes; de outro lado, o próprio governo americano financia as mesmas pesquisas que proíbem a Estados não-aliados, visando aplicações militares. Percebe-se que é uma alegoria do que acontece em relação aos tratados de não-proliferação de armas nucleares, em que os Estados Unidos, mesmo possuindo arsenal desse tipo, participam dos tratados e exigem o cumprimento de seus termos. É algo a que Noam Chomsky chama de “percepção seletiva”xiv, algo como um sistema de pesos e medidas absolutamente desigual em que para o governo estadunidense e seus aliados há uma postura em relação a determinado assunto e para os demais países, há outra diametralmente oposta e, às vezes, violenta.

Quanto a interferir em “culturas que jamais puderam compreender”, retomamos o episódio da Guerra do Iraque, iniciada em 2003, como exemplo. O esforço, já mencionado acima, de querer expandir os preceitos basilares das democracias ocidentais para o resto do mundo parte da presunção de que regimes democráticos são uma solução universal para problemas diversos. É um tipo de pensamento que minimiza ou ignora completamente as diferenças “civilizacionais”, e aponta claramente para uma crítica, presente n'Os Supremos, ao posicionamento intervencionista global dos Estados Unidos.

Crítica essa também presente na saga do Authority, porém de outra forma. O grupo assume para si a função de vigilante mundial e passam a intervir em inúmeros países que os membros consideram ditatoriais. A diferença dessa equipe para os Supremos é que estes respondem diretamente aos interesses americanos enquanto aquela não responde a ninguém. Pelo modo como Warren Ellis e Mark Millar, roteiristas do primeiro volume da série, escrevem as história do grupo, podemos inferir que o Authority tem um modus operandi similar à política “imperialista” dos Estados Unidos, em que se torna hegemônico também pelo seu poder de coerção e sem que o número de mortos num dado confronto seja relevante se, num cômputo geral, seja considerado que mais vidas teriam sido salvas. E é precisamente por agir de modo intervencionista e agressivamente que o grupo se torna alvo das nações do G7 (Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido, Japão, Itália e Canadá), são atacados e substituídos por um outro Authority, porém um que atendesse aos interesses desses países.

Uma última reflexão parece propiciar uma nítida confluência entre as três histórias aqui tratadas, levando em conta tudo o que foi considerado sobre a produção desses valores nas obras e que foram obras amplamente consumidas, indicativo de que há pessoas que, se não concordam com o que é expresso, ao menos têm curiosidade para conhecer o ponto de vista. Nas últimas páginas de Os Leões de Bagdá é retratada a morte dos leões por soldados norte-americanos que negam ter tido a intenção de matá-los, justificando sua atitude por uma defesa a um ataque que não existiu. A morte de inocentes raramente é admitida pelos responsáveis, que em número pouco significativo são julgados. Mal justificada também é a legitimidade à que se remetem os países interventores, pois fundamentam-se em “fatos” que não podem comprovar, exemplo disso é o argumento da existência de armamento de destruição em massa em solo iraquiano. A soma de “projetos bélicos” pouco elucidados, de uma guerra travada em campos midiáticos e de uma despreocupação com o destino das populações civis atinge seu clímax nos últimos quadros da obra, em que o profundo descaso com os leões mortos é coroado com a resposta à pergunta se seriam animais selvagens: “ Selvagens, não. Eles são livres.”xv

NOTAS:
i VAUGHAN, Brian K.; HENRICHON, Niko. Os Leões de Bagdá. São Paulo: Panini, 2008.
ii UOL/Reuters. Leões escapam de jaula em zoológico de Bagdá., disponível em:http://noticias.uol.com.br/inter/reuters/2003/04/21/ult729u23960.jhtm acessado em 24/11/2008. The Independent. IRAQ CONFLICT: Zoo lions are shot dead after escaping. , disponível em:http://findarticles.com/p/articles/mi_qn4158/is_20030422/ai_n12682954 acessado em 24/11/2008.
iii ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 1987. p.12.
iv Cf. Ibidem e KELLNER, Douglas. A Cultura da Mídia: estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. São Paulo: EDUSC, 2001.
v ECO, Umberto. op.cit., p. 27.
vi Cf. Ibidem, p. 50-54.
vii Quadrinhos são considerados cultura de massa (inclusive pelos dois intelectuais que pesquisam sobre cultura utilizados neste trabalho, Douglas Kellner e Umberto Eco), pois, ao nosso ver, a vendagem global de certos títulos populares de HQs de super-heróis, por exemplo, e a rentabilidade dessas franquias até mesmo fora do suporte original é indicativo de um produto cultural de massa. Afinal, nem só leitores de quadrinhos conhecem a mitologia do Super-Homem.
viii VAUGHAN, Brian K.; HENRICHON, Niko. op.cit., p. 3.
ix HOBSBAWM, Eric. Globalização, democracia e terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p.14.
x Consideramos no trabalho somente o material da série The Authority publicado entre 1999 e 2001 (nos Estados Unidos), que constitui o volume 1 da série. Sabemos que este material foi publicado, quase sua totalidade, fora do recorte temporal deste artigo, mas o cerne de nossa análise está no material escrito por Mark Millar, já no governo Bush.
xi A equipe que criou a série (Mark Millar e Bryan Hitch) produziu 26 edições publicadas com períodos de hiato entre 2002 e 2007. Cada temporada ou volume da série consiste em 13 números.
xii ELLIS, Warren; HITCH, Bryan. Authority: Sem Perdão. São Paulo: Devir, 2005.
xiii Marvel Millennium Homem-Aranha. São Paulo: Panini, n. 58, out. 2006. p. 104-105.
xiv CHOMSKY, Noam. Controle da Mídia: os espetaculares feitos da propaganda. Rio de Janeiro: Graphia, 2003. p. 14.
xv VAUGHAN, Brian K.; HENRICHON, Niko. op.cit., p. 129.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009




Ontem tive o privilégio de participar do evento comemorativo aos 30 anos da publicação de sua obra referencial: Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808) onde o próprio Prof. Fernando Novais palestrou sobre o seu livro para os Estudantes da FIOCRUZ.
Foram quase 4 horas maravilhosas, produtivas e divertidas passando por temas como Brasil colônia, Historiografia, Diálogo entre História e Ciências Sociais e sobre situações particulares que gentilmente o Prof Fernando Novais compartilhou com os presentes.

Uma música da rainha Maria Betânia: sintam

Eu Que Não Sei Quase Nada do Mar
Maria Bethânia
Composição: Ana Carolina/ Jorge Vercilo

Garimpeira da beleza te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio, não vou esquecer.
Eu que não sei quase nada do mar descobri que não sei nada de mim
Clara noite rara nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Clara noite rara nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Me agarrei em seus cabelos, sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas como faz o mar
E vem me bebendo toda me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio, não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar descobri que não sei nada de mim
Clara noite rara nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Clara noite rara nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
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